|
Voltar
| Por:
Maurício Macedo
Pela primeira vez escrevo para o HC Nordeste e nada melhor do que estrear
falando sobre um assunto diretamente relacionado ao mundo da produção
musical. A prática do Jabá (derivação de jabaculê, uma gíria da palavra
gorjeta) é bastante comum em rádios pelo Brasil afora. A iniciativa de
grandes gravadoras ao pagar para que as músicas de seus artistas contratados
rode na programação das emissoras diversas vezes ao dia, é considerado um
dos fatores para o alto custo do CD vendido nas lojas, pois o pagamento aos
radialistas é embutido no preço que chega até o consumidor.
Mas o grande mal do Jabá é outro. Com tão pouco espaço gratuito nas rádios,
como o novo artista - que começa a carreira de forma independente, sem
grandes gravadoras por trás - consegue ficar conhecido do público?
O mercado underground se movimenta aos trancos e barrancos e se hoje temos
bandas de destaque nesse cenário e que não estão presentes na grande mídia,
isso se deve ao excelente trabalho, no estilo "formiguinha", realizados por
esses artistas.
O Jabá é tão grave e ameaçador ao surgimento de novos artistas que já está
sendo discutido no Congresso Nacional. O projeto de lei nº. 1048/03, de
autoria do deputado pernambucano Fernando Ferro (PT), pretende proibir as
emissoras de rádio e tevê de receberem dinheiro para privilegiar a execução
de determinada música. "As emissoras operam mediante a permissão pública. É
inadmissível a prática de concentração do mercado", disse Ferro em
entrevista ao Jornal do Comércio (JC) de Porto Alegre (RS).
O deputado relatou que a França e os EUA contam com legislações sobre o
tema. A intenção de Ferro ao criar um projeto de lei nesse sentido se deve
aos depoimentos de artistas como o rockeiro Lobão, o sambista Jamelão, da
escola de samba da Mangueira (RJ), e da galera do grupo Mundo Livre S.A.,
que vem reclamando dessa situação há algum tempo.
O rockeiro acredita que o projeto de Ferro pode coibir o Jabá. "Primeiro tem
que ser criminalizado". Lobão afirmou ao JC que 95% dos artistas brasileiros
são excluídos das rádios. "É uma espécie cruel e eficaz de censura, abuso do
poder econômico, monopólio, falsidade ideológica, corrupção ativa e uso de
caixa dois".
Citando especificamente o Rio Grande do Sul (RS), onde moro, podemos
constatar que a prática do Jabá, apesar de obscura, persiste há muitos anos.
Desde 1995, a cidade de Atlântida, no litoral norte gaúcho, é palco de um
famoso festival promovido pela rádio que tem o mesmo nome do município.
Grandes estrelas do cenário nacional se apresentam em duas noites de shows
para um público de 20 mil pessoas, em média, por dia. Mas o que pouca gente
sabe, pois ninguém confirma mas também não nega, é que os artistas não
recebem cachê para tocar no Planeta Atlântida, como é chamado o festival.
Eles tocam de graça, simplesmente para "fazer uma média" com a emissora, que
pertence ao grupo que detém o "poder" de retransmitir as imagens da Rede
Globo para o RS, além de dois dos maiores jornais do Estado e uma série de
outras rádios AM e FM.
É importante que haja uma mobilização nacional pela aprovação do projeto de
Ferro. Radialistas e apresentadores de tevê, que não se deixam levar pelas
merrecas oferecidas pelas gravadoras, devem sair das sombras e apoiar a
iniciativa do deputado pernambucano. Assim como os músicos, independentes ou
não, que também não compactuam com o Jabá, devem lutar por uma legislação
que coíba essa prática nefasta e monopolista. Pois senão for assim,
futuramente só vai tocar na rádio quem tiver dinheiro para pagar… e sendo
assim, será decretado o fim da pretensão de novos artistas de conseguirem o
tão buscado sonho de viver sustentados pelo fruto de seus trabalhos com a
música. Ou alguém acha que a cena underground sustenta alguém por muito
tempo?! O fim do Jabá é, de fato, uma maneira de ampliar os espaços para
músicos do cenário underground nas rádios e fomentar a criação de novos artistas.
|